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leituras do território de Perus, São Paulo

sob uma ponte

 

Na rodovia surge a curiosidade em decifrar a paisagem do território que começa a se configurar. Poucos, além de estudantes de arquitetura, parariam no acostamento da ponte para ver aquela aparentemente desinteressante vista. No entanto para o olhar atento se percebe na existência desses vazios, a descontinuidade do urbano que se passa para entrar em Perus. O trem em direção do centro trilha seu caminho ao lado do rio, poucas construções surgem em meio a vegetação. A paisagem, poderia ser uma representação bucólica se não houvesse dois grandes cilindros da indústria de basalto e uma vibrante mancha cinza nos morros verdes, prenúncio da pedreira.

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a pedreira

Montanha corroída, o verde é rompido em dunas de pequenas pedras. De longe um corpo estranho na paisagem. De perto um cenário distópico, totalmente figurado, sem escape. A dissecação da terra nos revela a falta de vida em seu interior

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a escadaria

Uma fresta entre muros, para quem está na ribeira vislumbra uma irregular e monumental escadaria, com espelhos largos, segundo uma voz local cem degraus elevam a vida de baixo para a de cima. Quem vê alguém que sobe, vislumbra o corpo se apequenar na oblíqua perspectiva. Exausto quando se alcança o topo, a paisagem se forma por detrás. No primeiro plano o muro que desce, postes e galhos brotam, fachadas com janelas tortas insinuam a vida privada, de um cano a água despenca de dez metros. Na distância bananeiras, uma ocupação de alguns barracos, fios elétricos e palmeiras. Mas adiante a escala local, bucólica e desordenada, se rompe com a grande rodovia e os nós viários, por fim a enorme montanha corroída revela seu interior na pedreira.

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a antiga fábrica de cimento

A vontade invadiu a fábrica. Em volta um campo, caminhos demarcados, latidos de cães de guarda, o céu laranja. Uma grande variedade de volumes surgem aos olhos: planos, curvas, chaminés, hastes. Em meio mato e pixo, as ruínas descrevem, de algum modo, uma beleza indizível. Ossadas industriais, pintei essa decadência talvez com o mesmo prazer que um pintor do século XVII retratou a Roma clássica toda desfigurada.

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